domingo, 26 de outubro de 2008

Laerte

Publicadas na Folha de S. Paulo nos dias 03, 13 e 22/10/2008:


sábado, 18 de outubro de 2008

Aventura de Sono

NÃO CONSIGO MAIS controlar a vontade de cochilar no ônibus enquanto volto pra casa. E tudo parece exatamente simétrico, uma vez que é sempre no mesmo lugar do trajeto aonde minha rendição começa. Nosso relógio biológico funciona perfeitamente quando a nossa rotina se torna constante. Há uma semana eu mudei o horário de meu despertador, pensando que assim eu ganharia mais alguns preciosos cinco minutos de sono, mas vi que não deu certo. Ora, eu sempre acordo cinco minutos antes do alarme gritar em meu ouvido. Então espero desperto pelo momento de desligá-lo.

IMPRESSIONANTE É o tamanho da vontade que temos em permanecer na cama quando somos obrigados a acordar cedo. Já perdi uma dezena de aulas por conta dessa preguiça. Um amigo dizia que colocava seu despertador do outro lado do quarto para que se sentisse obrigado a levantar logo, a fim de não incomodar o sono dos outros. Porque quando o sono realmente é grande, um despertadorzinho já não adianta.


REZA A LENDA QUE Hipnos, o deus do sono, não conseguia adormecer em si o amor que sentia. Inocente dos olhos que o seguiam, a graça Pasitéia se banhava e adormecia. É então que Hipnos saía de seu esconderijo, mas ao menor movimento da jovem ele desaparecia entre as árvores. Nos banquetes do Olimpo não se cansava de admirá-la, mas temia confessar-lhe o amor.

DE REPENTE HERA vem a Hipnos pedir-lhe um favor: teria que fazer com que Zeus adormecesse durante a Guerra de Tróia para que os gregos a ganhassem, pois ele protegia os troianos no longo confronto. Em troca, Hipnos ganharia um trono de ouro, que seria construído por Hefestos; e o amor da mais jovem das graças, sua querida Pasitéia. Encorajado, aceitou o acordo instantaneamente.

HERA UNTOU SEU corpo com óleo, amarrou os cabelos, vestiu a túnica bordada por Atena e cubriu-se de jóias. Calçou as sandálias de ouro e envolveu-se de um véu dourado. E por último, colocou o cinturão de Afrodite, na qual pediu emprestado contando à deusa que precisava dele para reconciliar seus pais adotivos, Oceano e Tétis, que teriam discutido. Perguntada pelo marido aonde iria tão enfeitada, Hera respondeu que iria visitar seus pais, mas Zeus, encantado, proibiu-a e chamou a deusa para a cama, aonde fizeram amor. Hipnos então o adormece, o que permite a vitória dos gregos.

À NOITE, O DEUS do sono viu uma clareira e avistou Pasitéia, sua graça amada, que parecia esperá-lo desde cedo. Aproximou-se encorajado por um sorriso e beijou-lhe as mãos, sentindo-se o mais feliz dos imortais.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Constelação piegas

DAS LETRAS QUE COMPÕEM seu nome farei inconstantes personagens irreais. Vestirei cada um deles com as cores de seus pêlos, a intensidade de seu sangue, a transparência de suas lágrimas, a alvidez das suas presas, a profundidade de seus olhos e a textura da sua epiderme. Colocarei em suas bocas aquilo que sempre quis ouvir de você, mas ainda não me foi permitido. E então, gravarei a posição de uma dezena de estrelas no dia de seu aniversário a fim de reproduzir a cena e batizar a constelação nascente com o nome pelo qual você é chamada, para que eu sempre me lembre de jamais esquecê-la.

sábado, 27 de setembro de 2008

Invisível


Ainda me lembro do que ele ma chamou. Covarde inútil. Se eu já estava pra baixo, as palavras do capitão me jogaram de vez no chão. Mas talvez seja mesmo verdade. Minha missão já caminha rumo ao fracasso desde o seu princípio. Eu me iludi e enganei ao mesmo tempo aqueles que um dia já acreditaram em mim. O acaso acertou em cheio o meu estomago. Quiçá tenha sido esta a razão de meu vômito, que derramei novamente em meu velho caderno.

Eu tentei entrar na mente dela e acabei afastando-a de mim mais uma vez. Ainda não aprendi a abdicar dos recursos proibidos que possuo. Procurei me afastar de todos e percebi que não era necessário, uma vez que nunca estive verdadeiramente acompanhado. Se eu sumir, ninguém perceberá o ocorrido, uma vez que ninguém procurou saber sobre mim enquanto estive recluso. Como podemos sentir falta de alguém que nunca esteve conosco? Alguns sentimentos adquiridos ainda me são incompreensíveis.

Meu comunicador já não dá sinal de vida há tempos, mas sei que ainda funciona perfeitamente. Da última vez em que o utilizei respondi ao capitão que me cobrava um relatório dos acontecimentos, e isso já faz meses. O curioso é que estou sempre disponível, mas todos fingem não me ver. Talvez até deva discursar sobre essa indesejada habilidade em meu próximo ofício, o que poderá chamar a atenção de alguns.

Ele me pediu que eu sorrisse. E é o que eu tenho feito desde então. Este soldado nunca pareceu tão socializável. Esconder as mágoas, no entanto, é uma árdua tarefa, e uma recaída poderá a todos surpreender. “O que aconteceu com ele? Parecia tão bem...”

Ilusão. Ninguém responde à despedida de um fantasma uniformizado.

sábado, 20 de setembro de 2008

Laerte

Mais algumas tiras interessantíssimas do Laerte (publicadas em 30/08, 03/09 e 13/09/2008, respectivamente):



sábado, 6 de setembro de 2008

Realidades paralelas

Bons filmes são aquele em que você olha constantemente a sua duração e torce para que não acabe logo. Havia certo tempo que não me ocorria isso, até assistir Efeito Borboleta (The Butterfly Effect, 2004). Sim, eu já sabia que era um excelente filme, mas não sei por que nunca havia assistido... O roteiro gira em torno daquela vontade que todos temos de voltar no tempo e consertar alguma coisa que deu errado, alterando a nossa atual realidade. Simplesmente fantástico.

Outro filme interessantíssimo que fala acerca de realidades paralelas é Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004), um verdadeiro clássico moderno aonde Jim Carrey vai a uma clínica a fim de apagar algumas lembranças que o atormentavam, mas acaba se arrependendo do que havia feito Abre los ojos (1997), produção européia que originou a cópia Vanilla Sky (2001), também gira em torno da “modelagem” de lembranças. Neste filme, contudo, a criação da realidade falha e o nosso anti-herói se vê em um pesadelo, aonde deveria existir apenas um sonho. Não devemos nos esquecer do elogiado Amnésia (Memento, 2000), cujo protagonista tem um problema em sua memória recente e tenta investigar o assassinato de sua mulher, reconstruindo passo a passo os fragmentos de suas desconcertantes lembranças.

Falando em volta no tempo e mudança de personalidade eu me lembrei da música “O Velho e o Moço”, de Los Hermanos, que tem uma letra impecável. Vou transcrevê-la aqui (clique no play para ouvir a música e acompanhar a letra):

Deixo tudo assim, não me importo em ver a idade em mim / Ouço o que convém / Eu gosto é do gasto / Sei do incômodo e ela tem razão quando vem dizer que eu preciso sim / De todo o cuidado // E se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz / Quem então agora eu seria? // Ahh tanto faz! E o que não foi não é / Eu sei que ainda vou voltar... / Mas, eu quem será? // Deixo tudo assim, não me acanho em ver vaidade em mim / Eu digo o que condiz / Eu gosto é do estrago / Sei do escândalo e eles têm razão quando vem dizer que eu não sei medir nem tempo e nem medo // E se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado? // Ahhh, ora, se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim? / Dispenso a previsão / Ahhh, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição // Vou levando assim / Que o acaso é amigo do meu coração / Quando falo comigo, quando eu sei ouvir... (letra de Rodrigo Amarante)